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Enchentes e mortes no Recife, tragédia do capitalismo


David Rodrigo Capistrano

As chuvas atípicas que desabaram sobre o Recife e o arco da região metropolitana nas últimas semanas, deixaram um rastro de destruição e morte.

Somam-se até agora, 127 mortos e 1 desaparecido, já são mais de 9.000 desabrigados e 31 cidades decretaram "estado de emergência". Em uma contabilidade macabra, cadáveres são empilhados e enumerados em uma tabuleta fria de estatística de burocratas, como se não tivessem nome, sobrenome e classe social.

Eventos climáticos anômalos, ocorrem de forma cada vez mais, corriqueira e ordinariamente, como o que observamos em Pernambuco, particularmente, em Recife e em toda extensão do seu arco metropolitano e na zona da mata.  

Na zona da mata, além de comprometer a produção de açúcar e álcool das usinas e consequentemente, o trabalho de mais de 8 mil trabalhadores rurais do setor sucroalcooleiro, os pequenos e médios produtores também perderam completamente sua produção, lavouras de milho, banana, feijão, hortaliças e tubérculos, foram devastadas pelas fortes chuvas. 

Chove em toda a cidade de Recife, em toda a região metropolitana, mas só morrem, às dezenas, nos bairros proletários. Não podemos tratar tais eventos, como um desastre ambiental, embora seja também, o subproduto imediato, da intensa exploração dos ecossistemas, para extração de mais-valor biológico, visando saciar a apetite voraz do capital monopolista, entretanto, trata-se com inapelável rigor de uma tragédia social causada pelo capitalismo. 

O Recife de João, Chico e José

Recife retratado com lirismo poético por João Cabral de Melo Neto, na afrociberdelia de Chico Science e nos tratados sociológicos de Josué de Castro, tem em seu arranjo topográfico morros, manguezais e alagados. Seu relevo acidentado e irregular é composto de 70% de áreas de  morros, como nos casos dos bairros Jardim Monte Verde, área limítrofe entre Recife e Jaboatão, como em Vila dos Milagres, em Recife e Arrieiro em Camaragibe, onde o deslizamento dos morros destruiu as casas de inúmeras famílias matando mais de 60 pessoas. 15% de sua área é de mangues e alagados, nos quais se aglomeram o proletariado, os estratos inferiores das camadas médias pauperizadas e as demais classes despossuídas.

Sem direito a cidade, ao longo do processo acelerado de urbanização dos anos 20 e 30 do século XX, massas de camponeses pobres e ex-escravos, atraídas para as cidades, pelo magnetismo da rápida e robusta metropolitanização e o incremento da industrialização acelerada, foram, lenta, contínua e progressivamente, sendo, banidas do centro nervoso das capitais como Recife, e amontoadas nas áreas ciliares e nos extremos das franjas periféricas. Sofreram ao longo do tempo um sistemático processo de guetização e favelização, em barracos e palafitas, forçados a habitar as regiões menos valorizadas do ponto de vista do interesse do capital imobiliário e usurário, em morros, mangues e alagados, distando das áreas comerciais e industriais etc.

A luta contra o baronato e o direito às cidades

Cidades como o Recife tem sua arquitetura social a imagem e semelhança do baronato, o processo de urbanização e industrialização subordinada à lógica do desenvolvimento desigual e combinado, engendrado pelo imperialismo, nos países atrasados, ocorreu pari-passu, a um processo excludente de higienização social, guetização e favelização. Varrendo as classes subalternas para debaixo do tapete.

Recife tem um dos metros-quadrados mais caros do país, ficando atrás apenas de São Paulo. O capital usurário e a frenética especulação imobiliária turbina os preços para a estratosfera, dourando a pílula sociológica de Gilberto Freire, da Casa grande e Senzala, onde a tragédia da Senzala paga o luxo da Casa Grande.

Essa segregação de classe do espaço social integra o déficit habitacional mastodôntico de 5,8 milhões de moradias no país. Acrescido anualmente, em uma sinuosa curva ascendente, em Pernambuco esse déficit se situa na ordem de mais de 326 mil moradias. Só em Recife são mais de 70 mil moradias. No arco metropolitano, esse déficit salta para 113,275 mil! Nesse arco periférico se concentra cerca de 79%, entre as famílias do proletariado e demais classes subalternas, que recebem até um salário mínimo. É neste caldo de cultura que temos a fermentação desta tragédia social.

Os interesses do capital usurário e em última instância do baronato, a higienização social e o sobre-valor dos estoques imobiliários, turbinam a renda absoluta do solo, estando acima dos interesses do proletariado e do conjunto das camadas populares. 

As gerências de plantão nas governanças, mesmo com verniz de esquerda e com o epíteto vergonhosamente demagógico de socialistas, a seu turno, são servis estafetas destes interesses.

A medida que progride este processo de guetização, favelização e higienização social, banindo para área colaterais e bairros dos extremos da periferia das cidades, o proletariado e as demais camadas pauperizadas, assistiremos catatônicos e impotentes estes crimes sociais.

A digital do estado burguês-latifundiário, de ditadura do bancos - bancocracia - e em cujo centro está expresso os interesses dos usurários e latifundiários, que associados ao imperialismo, açambarcam a economia e drenam todas as energias do país, está impressa no laudo cadavérico de cada um dos que morreram quando o baronato burguês desenha as cidades a sua imagem e semelhança.

Todas essas mortes, todos os desabrigados e todas as sequelas dessa tragédia “natural do capitalismo” devem ser postos na conta da atual geração do baronato pernambucano, do capital e de seus atuais representantes políticos, são eles os responsáveis por esse crime social.

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