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EUA: o imperialismo caminha para uma crise de super endividamento

EUA atingem a maior dívida pública da história. A alienação do Estado imperialista e o Capital de Marx

Christian Romero e Humberto Rodrigues



O Departamento do Tesouro dos EUA informou esses dias que a dívida nacional total dos Estados Unidos ultrapassou os 30 trilhões de dólares atingindo um recorde de endividamento. O valor é equivalente a cerca de 130% da produção da atividade econômica anual dos Estados Unidos, o produto interno bruto (PIB), o que torna os Estados Unidos uma das nações mais endividadas do mundo em proporção ao seu próprio PIB     .

Como caracterizamos, estamos diante de um recorde na dívida pública dos EUA, o número chega a 30 trilhões. De toda essa dívida, quase 8 trilhões estão em mãos estrangeiras, principalmente nas do Japão e China, em um lista que inclui até o Brasil, mas claro, em muito menor escala. Pois bem, a conclusão que somos levados a pensar é a de se não estamos enfrentando a tendência de uma crise de super endividamento nos Estados Unidos.

O salto na dívida vem em grande parte dos pacotes de “estímulo” econômicos de Trump e Biden.  Essas manobras de “estímulo” conseguiram parar o declínio da economia americana com base na orientação da atividade produtiva para o Oriente, especialmente para a China. Essa dívida reflete as contradições sentidas pelo imperialismo estadunidense, sua incapacidade de se reindustrializar e de sair do barril sem fundo de recursos contínuos que a financeirização exige.

A dívida pública não é um vício da gestão estatal, é a forma mais avançada de gestão estatal na era capitalista. Esse mecanismo ganha novo vigor após a fusão do capital bancário com o capital industrial, ou seja, com o advento da era imperialista e é exponenciado pelo movimento combinado de desindustrialização/financiamento processado a partir da década de 1970 pelos Estados Unidos. Nessa tendência, o elemento produtivo industrial que compõe o capital financeiro mais como parte da economia mundial (externa) do que a economia nacional imperialista

Embora em 2021 tenha havido um crescimento do PIB de 5,7%, a maior taxa desde 1984, isso não foi suficiente para frear a tendência de estagnação nos próprios Estados Unidos, pois o jogo de alimentar uma bola de neve continua necessariamente tem que ter um limite abrindo caminho para a possibilidade de uma crise de super endividamento.

Não sabemos quais serão as futuras manobras dos EUA diante da possibilidade de uma crise da dívida – que pode incluir o não pagamento da dívida com a China como forma de atingir a própria China.


Endividamento público elevado à sua fase de maior decadência



Em O Capital Marx já demonstrava como a dívida pública era um mecanismo vicioso que gerou a acumulação original, a gênese do capitalismo industrial.

“O sistema de crédito público, isto é, de dívida estatal, cujas origens descobrimos em Gênova e Veneza já na Idade Média, apoderou-se de toda a Europa durante o período manufatureiro. O sistema colonial, com seu comércio marítimo e suas guerras comerciais, serviu de incubadora. Assim, ele primeiro se consolidou na Holanda. A dívida pública, ou seja, a alienação [Veräusserung] do Estado — seja despótico, constitucional ou republicano — deixou sua marca na era capitalista. A única parte da assim chamada riqueza nacional que está realmente em posse coletiva dos povos modernos é sua dívida pública. Daí, que seja inteiramente coerente a doutrina moderna de que um povo fica mais rico quanto mais se endivida. O crédito público torna-se o credo do capital. E, com o aumento da dívida do Estado, o pecado contra a dívida do Estado passa para o lugar dos pecados contra o Espírito Santo, para os quais não há perdão.

A dívida pública torna-se uma das alavancas mais poderosas da acumulação primitiva. Como com o toque de uma varinha mágica, ela investe força criadora no dinheiro improdutivo e assim o transforma em capital, sem a necessidade de se expor ao cansaço e aos riscos inseparáveis ​​de sua aplicação industrial e até usurária. Na realidade, os credores do Estado não dão nada, pois o montante emprestado se transforma em títulos de dívida pública facilmente negociáveis ​​que, em suas mãos, continuam a funcionar inteiramente como se fossem dinheiro. Mas também, além da classe de rentistas ociosos assim criada e da riqueza improvisada dos financistas que atuam como intermediários entre o governo e a nação - bem como a dos fiscais, os comerciantes, os fabricantes privados, que têm direito a uma boa parte de todos os empréstimos do Estado servem a capitais caídos do céu –, a dívida do Estado deu origem às sociedades por ações, à negociação de títulos negociáveis ​​de toda a espécie, à agiotagem, numa palavra: o jogo da Bolsa de Valores e a bancocracia moderna.” [1]

A dívida pública deixa de ser um vício da gestão estatal, uma excrescência dentro do sistema, para ser o sistema, o "sistema de crédito público", que se apoderou da Europa durante o período da Revolução Industrial e em todas as formas de governo esse sistema corresponde à Alienação do Estado.

Esse mecanismo ganha nova força a partir da fusão do capital bancário com o capital industrial, ou seja, com o advento da era imperialista, e é fortalecido pelo movimento combinado de desindustrialização/financiamento processado a partir da década de 1970 pelos Estados Unidos. O elemento produtivo/industrial da fusão que gerou o capital financeiro continuará a alimentá-lo mais como parte da economia mundial (externa) e do parasitismo imperialista sobre os povos oprimidos do planeta do que da economia imperialista nacional, agora desindustrializada.


Pela expropriação dos expropriadores!


A proporção da riqueza dos EUA produzida fora dos EUA é cada vez maior e a evasão da capacidade produtiva do país torna imperialismo dependente dos países oprimidos. O centro da depenência do imperialismo estadunidense não é de matérias primas (ainda que também), como foi a Inglaterra durante a sua clássica acumulação originária de capital, mas dependente de manufaturas e de grande parte das mercadorias industrializadas que consome, isso agrava o endividamento externo na medida em que cria déficit cumulativo das contas correntes na balança de pagamento e trocas internacionais.

Por sua vez, o endividamento dos cidadãos estadunidenses, das empresas e do país elevou a enésima potencia a “doutrina moderna de que um povo se torna tanto mais rico quanto mais profundamente se endividar”. O credo do capital tornou, em nosso tempo, os EUA dependentes do super endividamento. A "Alienação do Estado" imperialista exige desse Estado, para que ele continue existindo enquanto Estado imperialista, que siga sendo militar e implacavelmente opressor sobre os povos, incluindo os que são donos de seus títulos públicos. Não fosse o poder das armas, de imediato, a relação se inverteria, uma vez que os oprimidos passaram a ser os credores da vez. Essa contradição chegou a seu limite com esse endividamento recorde dos EUA e exige ser resolvida, mais cedo ou mais tarde, e não será resolvida de forma pacífica. Chega a hora dos novos credores, historicamente oprimidos, cobrarem a dívida, será uma batalha entre Estados. Mas, possuem ainda mais direitos históricos à cobrança de uma dívida imensamente maior, os produtores de toda essa riqueza, o proletariado expropriado. Chegará a hora em que os expropriadores serão expropriados.

Nota

1. Karl Marx, O Capital, Capitulo XXIV, A Chamada Acumulação Original

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