Manchetes do dia

Coletes Amarelos no Cazaquistão?

Uma revolução contra a inflação, a oligarquia, o imperialismo, sufocada pelas tropas de Putin?

Humberto Rodrigues


Era melhor acreditar que no Cazaquistão ocorreu o início de genuína revolução contra tudo e contra todos. Uma revolução que foi desencadeada pela luta contra a inflação dos combustíveis, os oligarcas, os monopólios imperialistas e desgraçadamente abortada pela intervenção dos tanques russos (como ocorria durante a primeira Guerra Fria 1945-1991).

Mas não foi exatamente isso que ocorreu e apenas as Pollyanas da esquerda, ou revolucionários coloridos, caíram em mais esse conto do National Endowment for Democracy - NED, o braço da CIA que patrocina as revoluções coloridas. O que ocorreu no Cazaquistão foi bem mais complexo do que na Síria. O álibi era perfeito: coletes amarelos no Cazaquistão! O que poderia ser melhor? Bastava se apoiar em oligarcas tão estúpidos que acreditassem que poderiam atender as ganancias dos acionistas da Chevron sem que isso não ensejasse uma revolta popular. Os oligarcas acreditavam que poderiam tranquilamente dobrar o preço do combustível usado por toda a população, de 60 tenges para 80 e depois até 120 tenges (cerca de US$3) por litro.

Também era favorável ao plano do NED a disputa entre a oligarquía restauracionista tradicional ,ligada a Nazarbayev, ambiguamente associada a Chevron e ao Ocidente e, do outro lado, seu afilhado político, o atual presidente Tokayev, que deseja independência em relação ao padrinho, ligando-se ao esquema da nova Rota da Seda.

A esquerda mundial, intoxicada pela opinião pública imperialista, também fez sua parte, socialdemocratas, stalinistas e pseudo-trotskistas apoiaram em unanimidade a nova revolução colorida. A história se repetiu como uma farsa do movimento dos coletes amarelos franceses contra o aumento dos combustíveis.

Não poderia dar errado! Logo o Cazaquistão, produtor de metade do uranio mundial, e a Ásia central seriam capturados desde dentro, politicamente, para a orbita atlântica e todo o projeto eurásico e sua rota da seda iriam ser implodidos desde seu centro geográfico! Mas o novo plano infalível teve vida curta, porque novamente Putin foi defender seus interesses, como fez na Síria.

Não, foi Putin que impediu a revolução social de triunfar no Cazaquistão. Nos processos da Líbia e da Síria, várias organizações “trotskistas” apoiadoras desses processos, argumentavam que foi a intervenção do imperialismo que impediu a revolução social de triunfar. Líbia e Síria, com os "rebeldes de Bengazi" e os "revolucionários de Damasco" foram parte de uma evidente revolução colorida organizada pelos que são experts em fazer isso desde Mossadegh, em agosto de 1953, no Irã, trama que foi detalhadamente explicada em "Todos os homens do Xá, livro de Stephen Kinzer.

Em agosto de 1953, os Estados Unidos derrubaram um governo do Oriente Médio pela primeira vez. A vítima foi Mohamed Mossadegh, primeiro-ministro iraniano democraticamente eleito. Apesar do aparente sucesso inicial, o golpe de Estado serve hoje como uma dura lição sobre os perigos de intervenções estrangeiras. Em Todos os homens do Xá, Stephen Kinzer, correspondente veterano do New York Times, faz o primeiro relato completo daquela funesta operação.

Para desenvolvermos genuínas revoluções sociais não podemos pegar atalhos nas revoluções coloridas do imperialismo. É preciso mais do que estamos fazendo hoje, é preciso dotar o processo popular espontâneo de de consciência de classe contra o capital e contra o imperialismo. Sem isso, alguma fração da burguesia continuará levando a melhor.

A última revolução vermelha vitoriosa, que derrotou o imperialismo e o capital ocorreu em 1975 no Vietnã. De lá para cá, nossas melhores vitórias foram no Irã, Nicarágua e Burkina Faso, mas nesses três casos a burguesia já não foi expropriada como classe social. Aconteceram várias lutas que impediram o capital e o imperialismo de avançar com seu neoliberalismo, aconteceram reversão de golpes de estados (Bolívia, Honduras), apesar das inúmeras baixas, o povo oprimido palestino, através de suas guerrilhas e suas greves vem derrotando o avanço sionista. Mas, na primeira metade do último meio século, pelo menos até a libertação de Allepo (2017), predominaram as invasões militares, contrarrevoluções, golpes de estado,... e revoluções coloridas made in CIA. O declínio imperialista e a nova guerra fria contra o bloco eurásico, acentuados com a pandemia, vem fazendo o imperialismo colher novas derrotas (Hong Kong, Bielorrússia, Afeganistão), reversão de golpes pela via eleitoral,como na Bolívia e Honduras, etc.

Sem revoluções vermelhas, como no Vietnã, que derrotaram o imperialismo e expropriaram a burguesia, a esquerda, cada vez mais inspirada por Hannah Arent que por Marx, Lenin ou Trotsky, intoxicada pela ideologia de nossos inimigos de classe, aderiu as revoluções coloridas para ter algo que comemorar ou por razões bem piores.

Como dissemos na conclusão de nossa declaração internacional assinada por camaradas e organizações de novo países:

“Deixamos este papel vil para aqueles que assinaram a declaração conjunta de "solidariedade com o levante no Cazaquistão", que parecem ter transformado em profissão o apoio ao imperialismo através de vários movimentos de “revolução colorida”. As revoluções vermelhas, como defendemos, pressupõem, na atual fase do capitalismo, a luta pela libertação em relação ao imperialismo.” (Cazaquistão - Declaração Internacional, Derrota de mais uma Revolução Colorida).

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