Manchetes do dia

KKE, o PC Grego, Sinalizando entrar à Esquerda, gira para a Direita

“Retórica ultra-esquerdista para se livrar de suas responsabilidades nos momentos cruciais da luta de classes”


Fachada do escritório central do KKE em Atenas

Carta enviada pelo camarada Panagiotis Papargyris, do grupo Ação Revolucionária Comunista (KED), ao camarada Humberto Rodrigues, da Frente Comunista dos Trabalhadores, do Brasil.

Panagiotis respondeu uma solicitação sobre suas impressões acerca do documento "Formação, Ação e Dissolução da Internacional Comunista sob o Prisma das Tarefas Atuais do Movimento Comunista Internacional", do Partido Comunista da Grécia, o KKE, publicado pela FCT e que pode ser acessado aqui. O documento do KKE é uma crítica ao PCFR russo.

O membro do KED nos escreve desde Nafplio, uma cidade portuária no Peloponeso na Grécia. Trata-se de uma brilhante crítica comunista a política do KKE, no âmbito internacional (Síria, Ucrânia, OTAN vs Rússia e China,...), em sua trajetória histórica e de sua política no plano doméstico, para a luta de classes na Grécia. 

O documento do KKE é apresentado pelo partido como uma “restauração das características revolucionárias do Partido", às vésperas de seu 21° Congresso, mudança essa que seria oposta a degeneração que caracteriza a maioria dos Partidos Comunistas, como o próprio PCFR ou o PCdoB. Vejamos:


Nafplio, 1 de março de 2021
Caros camaradas,

Espero que você esteja bem, apesar desse regime reacionário que vocês têm sobre suas cabeças.

Sobre o Partido Comunista da Grécia, o KKE e o documento que o camarada Humberto me pediu para comentar: Deixe-me começar dizendo que, como uma pessoa que por acaso nasceu na Grécia e é politicamente ativa lá, de origem trotskista, você pode entender a "pressão nacional" que é exercida quando se trata de falar sobre o "KKE” como partido “stalinista". No entanto, quero assegurar-lhe que tentarei ser o mais objetivo possível.

Apesar de toda a pressão nacional, quero sublinhar que considero a existência do KKE um importante trunfo do nosso campo internacional de classe. É um dos maiores partidos comunistas dentro do que chamamos de "Império", ou seja, o bloco ocidental que tem seu centro em Washington. Ao mesmo tempo, o KKE é um dos últimos partidos comunistas remanescentes que ainda seguram a foice e o martelo, continuando a declarar que lutam pelo socialismo, etc. Ao mesmo tempo, desempenha um papel importante nos esforços para reunir partidos comunistas de todo o mundo e criar iniciativas internacionais, emitir declarações conjuntas, etc.

Portanto, dificilmente anularei a contribuição ou o significado do KKE para nossa causa internacional. E eu compreenderia perfeitamente como um comunista no Ocidente pode muito bem estar emocionado com a existência e ação do KKE.

Apesar do fato de que o KKE é tradicionalmente um partido "stalinista", ele assumiu uma série de posições bastante interessantes durante o período anterior – posições que parecem ir contra sua tradição. Ela critica a política da Frente Popular, a colaboração de classes, o etapismo, etc.

De forma bem simplificada, eu poderia dizer que no Brasil essa política seria algo assim: estamos sob um regime ditatorial, então precisamos restaurar a democracia como prioridade em relação a luta pelo socialismo; nesta luta, nos aliaremos aos setores progressistas e democráticos da burguesia e aos partidos operários burgueses; talvez nos unamos a eles em um governo, e em qualquer caso vamos adiar a luta pelo nosso programa até então.

Ao fazer isso, o KKE está assumindo uma postura crítica em relação à sua própria história. Chama este processo de “restauração das características revolucionárias do Partido”.

Pode-se argumentar que tais posições parecem bastante trotskistas – e estaríamos muito próximos da verdade. E é verdade que essa crítica costumava vir de organizações trotskistas no passado.

É digno de nota que a oposição que veio de dentro do partido (que foi amplamente expurgada) chama o KKE de... trotskista. É engraçado, em certo sentido. Aqui está um exemplo, onde o KKE é acusado de trotskismo com base em um artigo escrito por um membro do SWP grego que recomenda uma reflexão crítica do KKE sobre sua postura na Segunda Guerra Mundial:
Νέο χειροκρότημα από τροτσκιστική γκρούπα στην ηγεσία του ΚΚΕ (Novos aplausos de um grupo trotskista na direção do KKE. O artigo original do SWP grego se encontra aqui: Ζαχαριάδης, τα ΚΚ και ο πόλεμος (Zachariadis, o Partido Comunista e a guerra).

O texto que o camarada Humberto me pediu para comentar é um bom exemplo desse processo.

Então ... do que se trata? O KKE está se voltando para o trotskismo? Estaria o KKE abandonando as idéias de colaboração de classes, frentepopulismo e a teoria etapista, adotando políticas revolucionárias de oposição prática intransigente a todos os setores da burguesia em sua luta pelo socialismo?

Infelizmente, acho que a resposta é muito mais simples - e muito menos inspiradora.

A Grécia capitalista se viu diante de decisões sérias na última década. A falência do país, a austeridade juntamente com a questão de saber se o país permaneceria na União Europeia ou não, a ascensão da esquerda reformista através do SYRIZA ao governo, a epidemia de COVID e sua gestão... E, claro, as tarefas associadas a condição de membro do bloco ocidental quanto a questão de seus inimigos (Rússia, China, Irã, Síria etc.).

Em cada uma dessas encruzilhadas, aqueles de nós que afirmam se opor à classe burguesa e querer derrubar o capitalismo tiveram que tomar uma posição. Lamento dizer que, em cada uma dessas encruzilhadas, o KKE assumiu uma postura que contribuiu para a preservação do status quo; e fez isso ao mesmo tempo em que empregava argumentos ultra-esquerdistas. Temos uma frase para esse tipo de tática na Grécia: “eles sinalizam que vão virar à esquerda para virar à direita”.

Permitam-me dar alguns exemplos:

Política internacional do KKE

Vejamos a Síria.

Como comunistas em um país da OTAN, o objetivo número um dos comunistas na Grécia deveria ser a derrota da “nossa” classe burguesa e seus aliados (mesmo que não percebêssemos o fato de que a Síria está travando uma guerra justa contra a dominação imperial). Portanto, devemos defender a Síria.

O KKE não faz isso. Como o KKE sai de sua obrigação de defender a Síria contra o ataque imperialista? Argumentando que fazer isso seria colaboração de classe, já que Assad representa a classe burguesa da Síria. Não, a linha correta de acordo com o KKE seria que o povo da Síria levantasse sua própria bandeira, derrubasse sua classe burguesa e construísse o socialismo.

Claro, o KKE bradará contra a OTAN e a intervenção dos EUA - mas ao mesmo tempo também falará contra a intervenção russa e iraniana. E quando eles realmente se mobilizarem contra o ataque da OTAN, eles o farão de uma forma muito relutante – isto é, eles simplesmente convocarão uma manifestação exclusivamente com membros do próprio KKE, que denunciarão suavemente a intervenção. Eles não farão nenhum esforço, por exemplo, para construir uma frente única que realmente se oponha à intervenção imperialista de uma maneira significativa.

Esta posição será sempre disfarçada nas declarações internacionais do KKE. Ainda assim, não é uma coisa fácil dizer ao Partido Comunista da Síria que eles precisam derrubar Assad quando as lâminas sujas do terrorismo Takfiri [do Daesh] estão a centímetros de suas gargantas.

Não vemos essa política do KKE apenas na Síria. O cerco da OTAN contra a Rússia e a China não é visto pelo KKE como um cerco, mas sim "rivalidades interimperialistas", nas quais a classe operária não tem lado. Afirmar o contrário seria subjugar o proletariado ao imperialismo russo! Defender o Donbass está fora de questão!

O mesmo se aplica ao conflito saudita-iraniano. Talvez até para a Venezuela, já que Maduro não é comunista... Cuba está descartada, pois está “restaurando o capitalismo” (ao contrário de nós, que derrubamos nossa classe burguesa e atualmente exportamos revolução e comunismo para todo o mundo... o nível de imodéstia quando se trata de conquistas políticas de outros povos é impressionante. A China é imperialista. A Rússia também, é claro. O que aconteceu no Brasil em 2016 não foi um golpe imperialista, mas um conflito interburguês entre os partidos burgueses. Dizer o contrário seria apoiar Dilma!! E suas medidas anti-populares. O que o tornaria um social-democrata e um oportunista, portanto um inimigo do povo.

Eu não me surpreenderia se os camaradas do PSTU - LIT-CI entrassem em êxtase com a adoção de sua linha idiota e destrutiva por um grande partido comunista...

Eu poderia continuar, mas acredito que já dá para entender.

Em 1999, quando os EUA atacaram a Sérvia, o KKE formou a espinha dorsal de um movimento popular de massa contra a intervenção. Era amplo e totalmente popular no estilo de frente que conformou. Hoje o KKE o despreza tais iniciativas como “frentepopulismo” – o que realmente era. Mas que foram eficazes, reunindo grande parte da população contra a intervenção, bloqueando até comboios da OTAN!

Um exemplo histórico

Voltemos a 1940 e à resistência à invasão italiana, à invasão nazista alemã e à posterior ocupação do país, quando o KKE estava na vanguarda da organização da resistência. O KKE de hoje olha para trás para aquele período de uma maneira crítica, considerando sua estratégia frentepopulista e colaboracionista de classe. Na verdade, foi; e, de fato, isso desempenhou um papel importante na “traição” da revolução. Mas, infelizmente, se não fosse pela política (frentepopulista e problemática) do KKE, não haveria nada a trair, pois não haveria movimento!

Dito de outro modo, o KKE está correto em criticar seu passado frentepopulista, porque de fato esse tipo de estratégia política contribuiu para derrotas, entre as quais a derrota de nosso campo de classe há 80 anos. No entanto, se a sua estratégia política de então fosse substituída pela que adoptou hoje, da qual se originam as suas críticas atuais, seria ainda pior, pois não teria havido movimento de massa para "trair". O KKE simplesmente não teria feito nada – além de lançar alguns slogans vazios (mas cheios de ortodoxia marxista) que não mobilizariam ninguém. E também foi isso que alguns bons camaradas fizeram naquela época. Tentando permanecer leais aos “escritos sagrados”, trotskistas muito decentes na Grécia tomaram uma posição errada na guerra há 80 anos. Tentando utilizar os esquemas de 1914 na guerra de 1939. Qual era o esquema de 1914? Nomeadamente guerra imperialista injusta -> dulplo derrotismo -> transformar a guerra imperialista em guerra civil. Todavia, esses camaradas esqueceram que havia uma União Soviética, que havia nascido o nazi-fascismo, que a Segunda Guerra Mundial tinha algumas diferenças qualitativas comparadas à Primeira Guerra Mundial. Eles também se esqueceram de que a Alemanha estava ameaçando diretamente a União Soviética, enquanto os outros imperialistas apenas a ameaçavam indiretamente. Quando a Grécia foi ocupada pelos nazistas, alguns desses camaradas pediram a transformação da guerra imperialista em guerra civil. Mas não houve guerra! Houve ocupação nazista da Grécia. A classe dominante na Grécia era agora a Wehrmacht, juntamente com a burguesia que havia ficado para trás e estava colaborando abertamente com os nazistas. Mais tarde, quando o Dezembro Vermelho estava acontecendo bem ao lado deles – uma verdadeira revolução, embora sob a liderança de stalinistas que haviam tentado o seu melhor para chegar a um acordo “ganha-ganha” com a classe burguesa – eles consideraram também isso como um conflito inter-burguês e tentaram encontrar a luta de classes “genuína” nas fábricas (que por sua vez eram inexistentes!).

A política do KKE no âmbito doméstico

Quando os vermes fascistas emergiram das eleições de 2012, obtendo 7% dos votos, e nosso campo de classe teve que lidar com eles também, o KKE escolheu tirar a poeira não de Dimitrov, mas de Dutt [R. Palme Dutt, dirigente do Partido Comunista da Grã Bretanha], defensor da grande teoria do “social-fascismo”, cujo sucesso foi maravilhosamente comprovado na Alemanha. Fazer uma ação prática conjunta com outros esquerdistas contra os fascistas seria trair a independência de classe do proletariado!

Em 2015, quando o reformista de esquerda SYRIZA tomou o governo e tentou implementar sua estratégia contraditória e sem saída (para convencer tanto a classe burguesa doméstica quanto "nossos parceiros europeus" de que a austeridade não era a solução), isso não deu muito certo. Terminou com “nossos parceiros europeus” chantageando SYRIZA e o povo grego como qualquer gangster faria, e com a classe burguesa doméstica se preparando para um golpe. Mantendo a independência de classe do proletariado, o KKE declarou que o que estava acontecendo aqui era simplesmente uma rivalidade inter-burguesa.

Quando SYRIZA teve que declarar o referendo, a sociedade se dividiu em duas de uma forma que nunca havíamos visto desde a Guerra Civil (1946-49). Unida, a classe burguesa preparou-se para uma guerra de classes aberta. Comícios anticomunistas ao estilo Maidan aconteceram no centro de Atenas. Mais uma vez, o KKE descartou esta luta como uma rivalidade inter-burguesa e convocou o voto nulo. E fez assim depois que o secretário-geral do partido se reuniu com os líderes dos partidos burgueses e lhes garantiu de uma forma muito amigável que o seu partido não tinha nada a ver com a Syriza – ou seja, que o KKE será bom e não causará quaisquer problemas para a burguesia nesta luta importante.

Agora vejam: antes de “restaurar suas características revolucionárias”, o KKE tinha um programa chamado “Frente democrática antimonopolista e anti-imperialista”, com a saída da UE como objetivo principal. Um programa clássico de colaboracionismo de frentepopulismo. Mas chegou um momento em que a implementação deste programa abalaria as fundações do Estado burguês grego (e possivelmente da UE também). Quando essa hora chegou, o KKE percebeu que esse programa deveria ser abandonado; e substituído não por uma tática da Frente Única, mas por completa inação.

Resumindo: o KKE utiliza essa retórica ultra-esquerdista para se livrar de suas responsabilidades quando se trata de pontos críticos da luta de classes. (Como um partido que empunhou armas contra a classe burguesa há 80 anos, sabe muito bem o preço de fazê-lo.)

Lamento sinceramente, meus queridos camaradas, pois não posso dizer que a mudança de curso do KKE seja uma boa notícia.

Saudações vermelhas,
Panagiotis Papargyris
Pela Ação Revolucionária Comunista (KED)

Nenhum comentário